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O uso de “drogas de estupro” cresce e preocupa

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A história começa com uma mulher despertando nua em uma cama de um quarto de hotel no qual não se lembra de ter entrado. Ela foi drogada em uma festa. E as únicas pistas que restam do que ocorreu na noite anterior são as marcas de estupro ainda visíveis em seu corpo.

Esse é um drama comum em toda América Latina, onde muitas mulheres se tornam vítimas de abuso sexual, até mesmo quando ainda são adolescentes. “Os estupros realizados com a ajuda de drogas eram raros quando comecei a trabalhar com o tema”, diz Maria Elena Leuzzi, presidente da ONG Ajuda a Vítimas de Estupro, organização que é referência para vítimas de abuso sexual na Argentina. “Hoje são mais frequentes. É muito fácil conseguir essas substâncias.”

Leuzzi diz receber ao menos quatro telefonemas por fim de semana de mulheres contando a mesma história: divertiam-se em festas ou casas noturnas de Buenos Aires e, depois, não se recordavam de mais nada.

Casos assim se repetem por todos os países da região. Só na Cidade do México, mais de 300 mulheres são estupradas por ano sob o efeito de drogas, e o número é cada vez maior, afirma Laura Martínez, presidente da Associação para o Desenvolvimento Integral de Pessoas Estupradas (ADIVAC, na sigla em espanhol), a única organização civil que atende casos de violência sexual no México.

Um catálogo cada vez mais amplo de substâncias psicotrópicas usadas para se cometer abusos sexuais. O objetivo é sempre o mesmo: anular a vontade da vítima e transformá-la em um “brinquedo” na mão no agressor. Um brinquedo que não terá qualquer lembrança do ataque.

Ao alcance da mão

A ONU já alertava em 2010 para o rápido aumento do uso das “drogas de estupro” e o surgimento de novas substâncias do tipo. Narcóticos usados com este fim são vendidos sem controle.

No caso da América Latina, as drogas mais usadas são a benzodiazepinas, obtidas facilmente em qualquer farmácia.  Os estupradores sabem quais quantidades levam a um estado de sedação e à perda de memória. Ao misturar com álcool, o efeito é potencializado.

As benzodiazepinas são drogas de efeito sedativo e hipnótico receitadas para o combate a estresse, crises nervosas, sonolência e ansiedade. Ainda que em muitos países se costume exigir uma receita médica ao vendê-las, os controles são facilmente burlados. Em outros, nem a receita é necessária.

Da Burundanga ao GHB

A burundanga, talvez a “droga de estupro” mais conhecida na América Latina, cresce de forma silvestre em quase toda a região. Chamada também de estramônio, trombeta ou “sopro do diabo”, ela tem como princípio ativo a escapolamina. Segundo o Departamento de Saúde dos Estados Unidos, este alcaloide provoca desorientação, alucinações, amnésia e, em doses elevadas, pode ser mortal.

No entanto, apesar da fama, é cada vez menos usada em abusos sexuais. Ela incapacita a vítima, mas também pode torná-la agressiva. Não é prática para o criminoso, que prefere outras drogas.

Uma das drogas silenciosas que está substituindo a burudanga é o GHB. Não tem odor nem cor, o que faz com que a vítima não perceba que ingeriu a substância. Seu nome científico é ácido gama-hidroxibutírico e é difícil detectá-lo. Ele é usado com fins medicinais no tratamento do alcoolismo, mas seus usos ilegais são mais frequentes e conhecidos. A substância também é chamada de êxtase líquido, porque seu primeiro efeito é a euforia. Não é complicado de sintetizar. Alguns criminosos até o preparam com removedor de tinta.

As drogas sintéticas ficaram mais baratas no país e jovens que antes não as compravam agora conseguem fazê-lo. Os controles internacionais do comércio de GHB são mínimos.

Estupros sem registro

Muitos dramas ainda são invisíveis. Na América Latina e na Espanha, há uma ausência significativa de observatórios especializados em abusos sexuais que envolvam fármacos. Nem os especialistas da agência da ONU contra Crimes e Drogas, a UNODC, têm estatísticas precisas.

A pouca informação existente na região é fragmentada e depende quase sempre de iniciativas isoladas de governos. Na Colômbia, o relatório mais recente foi feito pela Universidade Nacional, após reunir documentos do Grupo de Elite de Delitos Sexuais, uma unidade de investigação especializada criada em Bogotá. Entre junho de 2013 e março de 2014, foram denunciadas 184 agressões sexuais só na capital colombiana, das quais 53, ou quase um terço, foram facilitadas por drogas.

Ter informações exatas sobre esses casos é importante para criar políticas públicas, assim como um bom diagnóstico pode curar um doente. É o só a ponta do iceberg. Um em cada cinco estupros atendidos nos hospitais de Barcelona e Madri envolve drogas.

Drogas invisíveis

A maioria das “drogas de estupro” são eliminadas do organismo em menos de 12 horas. Então, a única maneira de detectá-las é com um exame capilar, feito em centros especializados. O processo é mais longo, requer a elaboração detalhada da história clínica do paciente e, em muitos casos, a vítima deve pagar pelo teste.

O GHB e outras drogas muitas vezes passam despercebidas pelos exames, que são fundamentais em um processo judicial por estupro. É uma questão de custo. Além disso, muitos criminosos aprenderam a usar as drogas mais difíceis de rastrear.

Sem um exame que comprove que a vítima foi drogada e muitas vezes sem qualquer lembrança do agressor, o estupro costuma ser o início de um drama judicial longo e doloroso.

Conselho

Talvez o conselho mais comum ouvido por uma adolescente que começa a sair para boates é “nunca perca seu copo de vista”. E o conselho não é um exagero.

As “drogas de estupro” precisam ser ingeridas para surtir efeito. É um mito que o simples contato com a substância pode drogar alguém. Nenhuma delas atua desta forma. Mas a quantidade necessária para drogar uma pessoa é tão pequena e se dilui tão rápido que bastam alguns segundos de desatenção para que o agressor a coloque em uma bebida – e, num local de festa, não é difícil um descuido assim.

Para tentar limitar o uso de fármacos em delitos sexuais, a ONU recomenda que a indústria química desenvolva medidas de segurança como adicionar corantes e sabores em seus produtos para que a vítima se dê conta se ingerir a substância. Mas essa é apenas uma recomendação.

A difusão de informações sobre o problema é outro passo importante para que ele comece a ser combatido.

Desde que vários meios de comunicação e organismos internacionais começaram a denunciar o crescente uso das “drogas de estupro” e suas consequências, Martinez, da ADIVAC, passou a receber um tipo inédito de telefonema: de mulheres com histórias ocorridas meses ou anos atrás. Elas dizem que sempre sentiram que algo estranho ocorrera na ocasião. Hoje, afirmam com convicção: “Fui estuprada.”

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