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set

Família e drogas: da exclusão à comunicação

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Estamos, a todo o tempo, envolvidos em uma rede de relações que nos formam, transformam, revelam. A família é a primeira “rede” que conhecemos, o primeiro laço que criamos e, por isso, ela é fundamental para compreendermos a complexidade dos fenômenos que nos cercam.

Abordaremos um tema – que é um problema de saúde pública – e precisa ser tratado de modo integral, multiprofissional e sistêmico: a dependência química, dando ênfase para as relações familiares envolvidas na problemática.

As famílias se fecham e se tornam rígidas quando um membro do sistema traz à tona algo que foge as explicações lógicas e racionais – este problema se torna um tabu. Os membros do sistema familiar acreditam que se não falarem do uso de substâncias psicoativas, eles não serão afetados por este problema, que esta questão irá deixar de existir.

“A modernidade tardia trouxe consigo um processo de individualização social, as pessoas são “libertadas” das formas sociais anteriores como classe, estato, família, estatuto de gêneros e etc. Essa situação gerou, sobre tudo no mundo ocidental, um “impulso social individualizatório”. Isso dissociou as pessoas, através da ruptura de continuidade da história, dos condicionamentos ligados à classe e família.” (TORRES; YACOUB, 2012)

Essa individualização mudou a estrutura da família. Na contemporaneidade, nós preferimos excluir o indivíduo que tem um conflito do que compreender que, como família, “nós somos o outro” “o outro nos revela”. Essa exclusão, que vem da individualização da sociedade, das relações líquidas (como Bauman chamou), passa de geração em geração e, cada núcleo familiar sente a desordem de forma única, por isso nós precisamos falar sobre o uso de drogas, sobre as relações familiares, sobre os problemas – que dizem algo de todos nós: estamos vivos, somos humanos.

Pesquisas na área de dependência química têm revelado a importância da família como fator de proteção e prevenção à recaída (Carvalho & Almeida, 2003; De Micheli & Formigoni, 2001; Fliglie, Fontes, Moraes, & Payà, 2004). A família pode ser tanto

um fator de proteção (diminuir a probabilidade de recaída) como um fator de risco (aumentar a probabilidade de voltar ao comportamento anterior), depende da forma que ela se estrutura. Profissionais da área de saúde devem fazer intervenções com toda a família, porque, provavelmente, há um desequilíbrio em todo o sistema familiar e, se tratarmos apenas o dependente químico, estaremos nos desviando da real intenção do tratamento: cuidar para que o paciente e sua família encontrem novamente o equilíbrio – que é consequência da mudança de comportamento, do diálogo, da assertividade, da compreensão e do amor da família. Lidar com o dependente químico de forma isolada não o prepara para retornar ao sistema familiar e à sociedade.

Família e terapeuta, então, formam uma sociedade com um objetivo comum que é mais ou menos formulado: libertar o portador do sintoma na família, de seus sintomas, reduzir o conflito e a tenção em toda a família e aprender novos meios de superar as dificuldades. (MINUCHIN & FISHMAN, 1990, p. 38).

A função das instituições que acolhem dependentes químicos é lidar com a família nuclear e extensa do paciente, considerando todas as gerações, principalmente no que se refere aos papéis que cada membro exerce no sistema familiar, porque, muitas vezes, o pai exerce o papel de filho, a irmã exerce o papel de mãe, o filho exerce papel de pai e isso, sem dúvida, precisa ser novamente organizado e estabelecido.

De acordo com Bert Hellinger, a doença também tem algo a ver com a desordem, não somente no corpo, mas também na vida, na família ou na alma. Assim, o processo de cura é ajudado se colocamos em ordem, da melhor maneira possível, o que está em desordem.

Josiane Resende Candido
Especialista em Dependência Química
Coordenadora do Núcleo de Psicologia

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